Maiores que o grande
Texto de SERGIO KRISTHINAS no jornal O JOGOA história é boa com esta equipa do Braga, pois é ela que a escreve. A presença na final da Liga Europa, conquistada ontem graças ao triunfo por 1-0 sobre o Benfica, é a confirmação de que se vê um grande cada vez maior na capital do Minho, o tal que já fazia confusão ao "status quo" do futebol português e que, agora, se confirma também no Velho Continente, tornando-se no quarto clube nacional a chegar ao jogo decisivo de uma prova da UEFA. Não, este Braga não é um Boavista, que passou como um meteorito pelo céu do futebol europeu. Este Braga é uma estrela, cintilante, forte, cheia de energia, que tem tudo para nos aquecer para o futuro. Grande? Pois claro. Ontem, maior do que o enorme Benfica, o clube português com mais adeptos e que faz do tamanho o maior trunfo.
A vitória foi conseguida graças a um golo solitário de Custódio, na sequência de um canto batido por Hugo Viana, aos 19'. Mas reduzir esta equipa de Domingos Paciência a um remate certeiro na sequência de uma grave falha da defesa contrária é apoucá-la de uma forma que não merece. O Braga não foi o Braguinha previsto na véspera por Jorge Jesus, que anunciara um adversário a apostar no contra-ataque e a tentar suster a suposta superioridade atacante dos encarnados. Domingos trocou as voltas ao homólogo, logo com o onze inicial, apresentando Mossoró no lugar de Salino. Esta alteração fez com que a equipa minhota surgisse uns metros adiantada, mais criativa e rápida com a bola nos pés, e assumindo a necessidade de correr riscos para inverter o 1-2 obtido uma semana antes no Estádio da Luz. E o Benfica, o tal que Jesus anunciara como uma máquina de ataque, passou a primeira meia hora encostado à sua área, sem conseguir sair com a bola controlada, e com os médios muito longe de Saviola e Cardozo, dois futebolistas que não sabem jogar por conta própria e que foram sistematicamente servidos por lançamentos longos que só os desgastavam.
Alan foi encostado à esquerda para tentar tirar proveito dos cuidados de Maxi Pereira, impedido de ver um amarelo; Mossoró e Lima iam trocando entre o centro e a direita, de forma a confundir Javi García e Fábio Coentrão - foram estes os berbequins que furaram a organização do Benfica, procurando o tal golo que surgiu aos 19' e que confirmou a série negra dos encarnados, agora há 17 jogos consecutivos sempre a sofrer. Com muito tempo ainda pela frente e a apenas um golo da final, as águias demoraram a reagir. E só no final da primeira parte, numa das poucas vezes em que foram servidos no pé e dentro da área, Cardozo e Saviola estiveram perto de criar o empate - o remate do argentino acabou no poste.
A segunda parte mostrou novamente um Benfica incapaz de criar perigo e um Braga seguro e sólido, confirmando a tendência europeia de manter as redes a salvo na Pedreira - em nove jogos, apenas o Shakhtar logrou marcar no Minho. E só nos 10 minutos finais, quando o jogo estava completamente estilhaçado pela sequência de substituições - Jesus lançou os modestos trunfos que tinha no banco (Jara, Kardec e Felipe Menezes) e Domingos respondeu, aumentando a solidez defensiva (com Salino e Kaká) - é que a formação lisboeta esteve perto do empate. Mas sempre em esforço, à espera de uma bola perdida ou de um ressalto que trocasse as voltas ao destino. Gaitán, Saviola e Jardel podiam ter sido os heróis de encarnado, ao mesmo tempo que Roberto (sim, desta vez não serve de desculpa...) mantinha o Benfica a apenas um golo de Dublin com duas defesas muito boas.
Num dos últimos lançamentos laterais junto da área contrária (e foram muitos, todos atirados directamente para a confusão), Luisão já nem foi ao ataque. Ficou no meio-campo, de mãos nos joelhos, a ver a história fugir-lhe entre os dedos. Pouco depois, o árbitro Martin Atkinson apitou forte. Era a última vez que o fazia, lançando toda a equipa do Braga, mesmo os jogadores lesionados que estavam na bancada, numa correria louca de felicidade relvado adentro e em comunhão com as bancadas. Quem deve ter também festejado foram os amigos de Domingos, em especial os tais benfiquistas que também preferiam vê-lo a ele na final de Dublin, onde o adversário será o FC Porto. É só mais um grande.
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