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5 de março de 2012

OUTROS TEMPOS
Luanda

VIVER ANGOLA É VIVER A HISTÓRIA

- Edifício da Livraria Lello, em Luanda -

Com a devida vénia trespasso este texto da autoria de 
FERNANDO PEREIRA
extraído do site PENSAR E FALAR ANGOLA.
- Assim tenha um tempinho vou dar uma achega.
O tempo também eu vivi, fui colega do Osvaldo na Aplicação e Ensaios e no Salvador Correia e lembro-me perfeitamente do grupo Lello, pois eu ia muito à esplanada da Portugália... e também via o Serra Coelho, da Foto Sport



Durante muitos anos no passeio fronteiro à Lelo juntava-se um grupo de pessoas, que tinham em comum serem amigos, companheiros de vida e terem assistido às mutações de Angola ao longo de décadas.
Era um grupo heterogéneo no contexto político e profissional, e invariavelmente todos os dias da semana ao fim da tarde reuniam-se para falarem do que calhava. O grupo era numeroso e lembro-me dos irmãos Guerra Marques, Antero de Abreu, Dionísio Rocha, António Chaves, o “mais velho Lello” e o Osvaldo, entre outros que o tempo diluiu na minha lembrança.
Pela mão do meu amigo Osvaldo Pinto integrei-me no grupo, era o benjamim, ia ouvindo, mais que participar nas conversas que invariavelmente eram sobre a cidade de Luanda e sobre a Angola, ao tempo a debutar como País independente. As discussões eram acaloradas e do muito que ouvi, fui aprendendo sobre a evolução da cidade e de algumas realidades de Angola que me iam escapando, também por excessos de romantismo revolucionário.Algumas das histórias que aqui tenho colocado saiu daquela esquina, de onde há muito desapareceu aquela tertúlia porque a inexorabilidade das contingências da vida levaram muitos dos “tertulianos” , os que restaram começaram a debandar e a desertificar o espaço de gente e ideias.Veio-me à lembrança uma recorrente conversa sobre colonos e cooperantes, no léxico actual talvez expatriados. Quando eu e outros defendíamos a cooperação com os países “socialistas” , Osvaldo Pinto, com o seu poderoso argumento de pulmão, dizia que “nenhum País se construía com cooperação”. Os argumentos assentavam na ideia que “vinham cumprir um contrato, fazer o menos possível e despacharem-se o mais rapidamente para as suas terras”. “Não se ligam a isto porque tem os pés noutro lado”. “Os países só se desenvolvem quando se tem o espírito do colono, de fixação, de adopção de culturas locais, de sentir a terra e esquecer o lugar de onde se vem”. “Só constituindo família as pessoas se ligam à terra, e nunca estão à espera de se ir embora e desenvolvem o que sentem seu, nunca se esqueçam disso”.O tempo veio demonstrar que o Osvaldo Pinto tinha alguma razão, porque de facto a cooperação em Angola foi nalguns aspectos um fracasso, em que as pequenas excepções bem sucedidas apenas confirmaram a regra.Vi um programa na TV dirigido pela “ moderadora” portuguesa Fátima Campos Ferreira, um “Reencontro”, que me fez lembrar programas de outros tempos, assim uma coisa que Artur Agostinho apresentava na RTP no início dos anos 70 que se chamava “25 milhões de portugueses”, patrocinado pelo sucedâneo do SNI e apoiado pela Agencia Geral do Ultramar, que me querem fazer crer que o Adriano Moreira nada teve a ver. Confesso que despercebo a quem é que a “moderadora” e os que pensaram o programa quiseram fazer o frete, pois tudo o que vi foi uma péssima propaganda a Angola e à inteligência de muitos angolanos e portugueses que não pactuam com este folclore serôdio.
O programa que à partida já me suscitava alguma suspeição, pelo que me habituei a ver nos programas conduzidos pela FCF, acabou por se revelar um perfeito desastre, mal preparado, o debitar sistemático de lugares comuns, demagogia e panegíricos a todo o momento entre os convidados e as gentes da plateia, filmes numa Luanda domingueira, e momentos culturais pobres, o que de facto é incompreensível pela qualidade dos intervenientes. Confirmaram-se em absoluto as minhas suspeitas, e só espero que as relações entre os Países não tenham que passar por transes destes muitas vezes. O título do programa, “Reencontro” é uma completa estultice, e revela quanto se desconhece a realidade da ligação estreita entre Angola e Portugal ao longo destes trinta e seis anos de soberanias próprias, mas de respeito entre dois povos que se identificam, partilham valores, saberes e vivem quotidianos comuns na cultura, no desporto e na economia.A bem dizer, um a despropósito!
Fernando Pereira
17-1-2012

25 de dezembro de 2011

ANGOLA DEMOCRÁTICA


“Somos Independentes, Seremos Socialistas”,

era uma frase muito em voga no dealbar da independência há trinta e seis anos. Somos independentes, mas não seremos socialistas, pelo andar da carruagem.

Sou um franco leitor do blogue "Pensar e Falar Angola"  do meu amigo Carranca. Sou porque é lá que encontro uma síntese dos principais acontecimentos ocorridos na minha terra, apresentados e divulgados com acentuada isenção. Mesmo quando lá me deparo com a divulgação de notícias que não fazem a apologia do que eu penso - por isso anteriormente me referi à isenção -, eu fico a par do que acontece ou, pelo menos, é dado como certo.
Adiante: Hoje, depois de ter o papo atestado com uma caldeirada de cabrito que Dona Helena  cozinhou com os seus segredos "caldeirescos" ,  vim espreitar a actualidade que desprezara desde sábado. Ao abrir o meu gmail que o pc do Carranca me envia pontualmente, topei um texto assinado por FERNANDO PEREIRA , autor que aprecio pelo timbre de uma assinatura de personalidade que olha nos olhos quando fala e fiquei encurralado na leitura do texto que aqui reproduzo integralmente. É um documento que muito bem poderia servir para respigar pormenores históricos - embora opinativos -,  e, também, merecedor de divulgação maior, principalmente junto daqueles que ainda levantam a voz contra o actual governo angolano, um governo que em pouco mais de trinta anos de independência fez mais, mas muito mais, do que os portugueses fizeram em mais de 500 anos de ocupação colonial. 
Seria esta, talvez, uma oportunidade excelente para eu, que vivi no Huambo -Huambo: Cidade, Vida! -, doze anos após a independência, para contar muitas das páginas que serviram para uma verdadeira identificação com a essência e a realidade dos objetivos  já na ocasião definidos na linha da democracia que, volvidos quase 50 anos por mim vividos sobre aquelas datas, se vislumbravam. E esta minha afirmação não carece do recurso a binóculos para se ter a certeza de que a verdadeira democracia em Angola está à vista aberta. Aqui o Fernando Pereira já escreveu e por acréscimo digo eu:  basta recordar o quanto o fundador da Nação Angolana, o Dr. Agostinho Neto disse como orientações,   antes de ir ao encontro da morte na União Soviética, no périplo que fez pelo País.
E AGORA MEUS AMIGOS, LEIAM, ATENTEM E SE FOR CASO DISSO, COMENTEM. 
As verdades - provadas - devem ser ditas e divulgadas 
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 Fernando Pereira

3 de outubro de 2011

ANGOLA MODERNA
Kilamba kiaxi

QUE FUTURO ESPERAR em KILAMBA KIAXI?
Vista parcial de nova cidade do Kilamba kiaxi  (antigo bairro do Golfe)
Simplesmente... importante e oportuno o artigo assinado por Fernando Pereira, no site "Pensar e Falar Angola", sobre o crescimento urbanístico de Luanda, impressionante, anárquico e medonho que, eu também vi, com a querer ser algo "mega qualquer coisa" mas que, causa preocupação. Eu próprio me apercebi, quando recentemente estive na minha terra, de uma situação que nem preciso ser arquiteto para pensar e ficar apreensivo. a construção de prédios muito altos, ao lado de outros da Luanda antiga, com 3 e 4 andares que ficam submersos nessa imensidão criando-se um problema que poderá ser grave se nao se fizer um plano diretor da capital angolana. Nem falo do Kilamba - leiam o artigo do Fernando Pereira clicando AQUI -, mas falo da poluição. Tudo está cientificamente determinado nesta vertente poluição da atmosfera, valores de oxigénio, iodo etc, etc. que serão a causa de graves problemas dos que viverem nos prédios mais baixos na selva dos arranha-céus luandinos.
KILAMBA UM ERRO URBANÍSTICO
Avenida Marginal Luanda - Contrastes passado e presente




Por insistência de um amigo, fascinado pelos prédios em altura, acompanhei-o numa visita à “Nova Cidade de Kilamba Kiaxi”.

Habituado às bizarrices urbanísticas e aos discutíveis projectos arquitectónicos que enxameiam a cidade capital, limitei-me a encolher os ombros enquanto o meu amigo exultava com a quantidade de gruas e a dimensão dos estaleiros.



A ideia que trouxe quando saí daquele emaranhado de torres, atafulhadas umas em cima de outras, completamente desinseridos de um contexto aglutinador de cidade, só me resta achar enquanto observador diletante, que quem projectou aquilo está numa posição privilegiada para fazer muitíssimo pior.
Por ironia do destino, o Semanário Angolense fez na semana passada uma entrevista ao arquitecto Simões de Carvalho, um luandense nado e criado numa cidade onde participou em equipas interdisciplinares de planos directores municipais, elaborou coerentes planos de pormenor (o trabalho no Prenda é paradigmático) e executou obras arrojadas que passados mais de quarenta anos ainda são referências no caos urbano em que se transformou a cidade (a título de exemplo o edifício da Rádio Nacional de Angola).
Essa entrevista merece releitura atenta porque de uma forma cortês Simões de Carvalho, põe em causa o muito do que de mau se tem feito em Luanda para deleite de alguns, infelizmente bastantes, que olham para a cidade como se estivessem a ver uma Manhattan.
O arquitecto Simões de Carvalho entre vários exemplos foca a perigosidade dos arranha-céus construídos na baixa e na Ilha, e acima de tudo a existência de caves, num solo arenoso e permeável às águas. Não me canso de repetir que a entrevista merece reflexão, e acima de tudo urge discutir a cidade nas suas múltiplas vertentes, para ver se ainda vamos a tempo de conseguir salvar alguma coisa para o futuro, sendo nossa obrigação pedir desculpa aos vindouros por lhe termos legado um património edificado com tamanha falta de visão e qualidade.
A visita a Kilamba Kiaxi obrigou-me a procurar a revista “Novembro” de Fevereiro/ Abril de 1977, onde recordei a viagem de Fidel de Castro a Angola em 23 de Março de 1977. Dirigida pelo saudoso Mário Alcântara Monteiro, esta “Novembro” trouxe-me gratas recordações da vivencia colectiva de um País que emergia orgulhoso no contexto das nações africanas.
FIDEL CASTRO ADVERTIU
Fui ler o discurso de Fidel de Castro no Golfe, por ironia muito perto do que é hoje a Nova Cidade de Kilamba Kiaxi, e a realidade é que ao tempo o discurso era coerente e nalguns aspectos mantém grande actualidade.
“Antes de vir a Luanda, todos os cubanos me diziam: “Luanda é uma cidade muito bonita”. Efectivamente Luanda é uma cidade muito bonita. Tem grandes edifícios de dez, doze andares; grandes avenidas… Há 140 edifícios para terminar…” “Agora, o governo angolano enfrenta estes problemas: Muitos grandes edifícios que estão por terminar_ E muitas famílias vivem nos musseques. Que fazer? Dedicar todos os recursos a concluir esses edifícios? Serão alguns centos, talvez alguns milhares de habitações. Mas isso é muito caro. Com o que custa um desses apartamentos talvez se façam três casas…” “…Aqui no Golfe há-de erguer-se a primeira experiencia piloto de urbanização” …” Os prédios se forem muito altos precisam de elevadores, tecnologia que os angolanos não dispõem e ficam sempre dependentes dos países capitalistas para a sua manutenção”… Se forem moradias unifamiliares aumentam de tal forma a cidade que precisam de uma rede de transporte eficaz e as viaturas e manutenção dependem do imperialismo” …”a solução tem que ser prédios pequenos onde se estabeleçam relações de convívio e vizinhança e que não aumentem a cidade de forma a torná-la insuportável”… E por aí fora sintetizada numa frase: “ a Revolução tem que construir para todos”.
Do que li desta alocução de Fidel de Castro nada contraria o que Simões de Carvalho disse na sua entrevista ao Semanário Angolense. Ontem como hoje a manterem-se as coisas os problemas de amanhã serão os mesmos.
Fernando Pereira - 30/7/2011